Toda empresa vai perder um líder importante em algum momento. A diferença entre as que atravessam essa transição bem e as que entram em crise não é sorte, é preparo.
Segundo a Gartner, 72% dos líderes de RH dizem ter dificuldade em fechar os gaps de capacidade dos seus sucessores. No Brasil, o cenário é ainda mais desafiador. Empresas de controle familiar representam cerca de 90% dos negócios do país, respondem por 65% do PIB e empregam 75% da força de trabalho privada, segundo dados do IBGE e do Sebrae. Apesar dessa relevância, a imprensa de negócios brasileira tem repercutido um levantamento da PwC segundo o qual apenas 24% da geração atual à frente dessas empresas tem um plano de sucessão robusto.
Neste artigo, você vai entender por que a maioria dos planos de sucessão falha, e como usar dados para identificar e preparar os próximos líderes da sua empresa antes que a transição vire uma emergência.
O que é plano de sucessão
Plano de sucessão é o processo estruturado de identificar cargos críticos dentro da empresa e preparar candidatos internos para assumi-los quando o ocupante atual sair, for promovido ou se aposentar.
É diferente de um plano de carreira individual. O plano de carreira olha para o desenvolvimento de uma pessoa. O plano de sucessão olha para a continuidade de um cargo, e geralmente envolve mais de um candidato possível para cada posição crítica.
Por que a maioria dos planos de sucessão falha
Ter um plano no papel não garante nada. Os dados da Gartner mostram exatamente onde as empresas erram.
Apenas 38% dos executivos responsáveis por RH confiam que vão conseguir entregar as metas de sucessão da empresa no próximo ano. Uma das razões é o foco excessivo no topo do organograma: 61% dos líderes de RH afirmam que os planos de sucessão são voltados demais para cargos de diretoria, deixando de lado posições que são igualmente críticas para a operação, mas menos visíveis.
Outro erro comum é escolher sucessores com base no cargo atual, não no que a empresa vai precisar no futuro. Apenas 35% das organizações selecionam sucessores alinhados às necessidades estratégicas futuras do negócio. O resultado são sucessores tecnicamente competentes hoje, mas despreparados para os desafios de amanhã.
Como os dados entram na equação
O erro de fundo por trás desses números é decidir sucessão no feeling. Indicar alguém porque “parece pronto” ou porque é a pessoa mais próxima do gestor, sem nenhum dado estruturado que sustente essa escolha.
É aqui que o people analytics muda o jogo. Cruzar dados de avaliação de desempenho com avaliações de potencial permite montar um retrato mais objetivo de quem está realmente pronto para assumir mais responsabilidade, e reduz o viés de achar que o candidato mais parecido com o líder atual é automaticamente o mais indicado.
A calibragem entre gestores também ajuda a resolver outro problema comum: critérios diferentes de um time para o outro. Sem calibragem, um “alto potencial” no time de vendas pode significar algo completamente diferente de um “alto potencial” no time de operações, o que distorce qualquer decisão de sucessão baseada nesses dados.
Framework prático em 4 passos
1. Mapeie os cargos realmente críticos
Antes de pensar em nomes, identifique quais posições, se ficassem vagas amanhã, colocariam a operação em risco. Nem sempre são os cargos mais altos do organograma. Um especialista técnico insubstituível pode ser tão crítico quanto um diretor.
2. Construa um pool de sucessores com dados, não com uma única aposta
Evite apostar em uma única pessoa por cargo crítico. Se ela sair antes do previsto, o plano volta à estaca zero. Use dados de desempenho e potencial para formar um pool mais amplo de candidatos por posição, o que também reduz o viés de favorecer sempre o mesmo perfil de profissional.
3. Transforme o mapeamento em desenvolvimento real
Identificar um sucessor não adianta nada sem um caminho claro de preparação. Aqui entra o PDI de cada candidato, com objetivos concretos ligados às competências que a posição futura vai exigir, não apenas às competências do cargo atual dele.
4. Tenha conversas de carreira com frequência
Segundo a Gartner, 40% dos líderes de RH dizem ter dificuldade em fazer os gestores se comprometerem de fato com o desenvolvimento dos sucessores depois que o plano é traçado. A saída é criar um ritmo regular de conversas entre gestor e candidato, e não tratar o plano de sucessão como um documento revisado uma vez por ano e depois esquecido.
Sucessão é continuidade, não crise
Empresas que tratam sucessão como parte da rotina de gestão, sustentada por dados de desempenho e potencial, chegam ao momento da transição com times mais preparados e taxas de retenção mais altas. Empresas que deixam para pensar nisso quando o cargo já está vago, não.
Esse é um dos pilares que separa um RH estratégico de um RH que só reage aos problemas conforme eles aparecem. E como em qualquer decisão estratégica de gestão de pessoas, tudo começa pelos dados que a sua empresa já tem sobre o próprio time.