Empresas ao redor do mundo removeram a exigência formal de diploma universitário de milhares de vagas nos últimos anos. Mas remover o requisito do papel não significa abandonar o diploma na prática. Um estudo de 2024 da Harvard Business School com o Burning Glass Institute prova isso com dados de contratação real: menos de 1 em cada 700 novos contratados no mercado americano se beneficiou dessa mudança. Dados ainda mais recentes, de janeiro de 2026, do Indeed Hiring Lab, mostram que a exigência formal de bacharelado inclusive voltou a subir levemente nas vagas publicadas em 2025, sinal de que o movimento está longe de ser uma linha reta.
Esse cenário tem raízes mais antigas. No início dos anos 2000, empresas americanas começaram a adicionar requisitos de graduação em vagas que antes não pediam diploma. Menos de uma década depois, a Grande Recessão derrubou parte desses requisitos.
Mais de dez anos depois desse período, uma pesquisa da Harvard Business Review analisou mais de 51 milhões de vagas publicadas entre 2017 e 2020. O resultado: os empregadores estão de fato redefinindo os requisitos de graduação em uma ampla variedade de funções.
A mudança é mais forte em cargos de qualificação média — aqueles que pedem algum treinamento além do ensino médio, mas não necessariamente uma graduação de quatro anos. Em cargos de qualificação mais alta, a queda também existe, mas é menor.
Por que o diploma não desaparece de verdade
Aqui está o ponto central: tirar o diploma do requisito formal é diferente de parar de valorizá-lo na contratação.
Habilidades técnicas são relativamente fáceis de confirmar. Um teste na entrevista, uma certificação, o histórico de emprego — tudo isso funciona como evidência concreta. Habilidades sociais são outra história. Comunicação, trabalho em equipe, colaboração em tempo real: são competências difíceis de avaliar em um processo seletivo curto.
É exatamente aqui que o diploma continua entrando. Pesquisadores identificaram que muitos empregadores usam a graduação universitária como um substituto — um proxy — para avaliar essas habilidades sociais mais difíceis de medir. Por isso, mesmo quando a exigência de diploma some da descrição da vaga, ela pode continuar pesando, informalmente, na decisão final de contratação.
O estudo de 2024 da Harvard Business School com o Burning Glass Institute coloca números nessa lacuna entre discurso e prática. A pesquisa analisou mais de 11 mil vagas em grandes empresas americanas entre 2014 e 2023 e descobriu que remover a exigência de diploma aumentou a fatia de contratados sem graduação em apenas 3,5 pontos percentuais. Extrapolando para o mercado como um todo, isso equivale a menos de 1 em cada 700 novos contratados.
Mas o dado mais interessante talvez seja outro: nem todas as empresas se comportaram assim. Cerca de 37% delas — classificadas pelos pesquisadores como líderes em contratação por habilidades — conseguiram um aumento de quase 20% na contratação de pessoas sem diploma. A maioria das outras empresas, porém, fez a mudança só no papel. O diploma sumiu do requisito, mas não saiu da cabeça de quem decide contratar.
Os dados do Indeed Hiring Lab citados na abertura do artigo reforçam esse cenário: em novembro de 2025, cerca de 1 em cada 5 vagas na plataforma (19,3%) ainda exigia bacharelado ou mais — um número até um pouco mais alto que um ano antes. O movimento existe, mas está longe de ser linear.
O que de fato melhorou
Nem tudo ficou igual. As pesquisas apontam uma mudança real e positiva: empresas que removeram o requisito de diploma passaram a escrever descrições de vaga mais detalhadas sobre quais habilidades comportamentais e técnicas elas de fato buscam.
Isso cria uma via de mão dupla. Do lado da empresa, o processo de seleção fica mais claro sobre o que está sendo avaliado. Do lado do candidato, fica mais fácil entender quais competências desenvolver — e incluí-las no currículo de forma mais direcionada.
Essa transparência é o ganho concreto da tendência, mesmo quando o diploma continua influenciando a decisão nos bastidores.
E no Brasil?
A pesquisa tem como base o mercado americano, mas o recorte importa para o Brasil por um motivo simples: uma pesquisa de 2021 apontou que apenas 5% da população brasileira possui diploma de graduação.
Num país onde o diploma é ainda mais raro que nos EUA, a diferença entre “exigir graduação no papel” e “usar habilidades reais como critério de decisão” tem um impacto direto sobre quem consegue acessar empregos bem remunerados. Reduzir barreiras formais — sem abrir mão de avaliar competência de verdade — é um caminho concreto para mais equidade no mercado de trabalho brasileiro.
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