Contratação Baseada em Habilidades: o Que Realmente Mudou (e o Que Não Mudou)

A contratação baseada em habilidades está aumentando

Resumo do artigo para você que está sem tempo

Neste artigo, abordamos a diferença entre o discurso e a prática na contratação baseada em habilidades. Muitas empresas removeram o diploma da lista de requisitos formais nas vagas, mas isso não significa que pararam de valorizá-lo na hora de decidir quem contratar.

Um estudo de 2022 mostrou que os requisitos de graduação vêm sendo redefinidos desde 2017, especialmente em cargos de qualificação média. Já uma pesquisa mais recente, de 2024, foi além das descrições de vaga e analisou contratações reais: menos de 1 em cada 700 novos contratados se beneficiou da mudança.

O motivo é que o diploma funciona como um substituto informal para avaliar habilidades sociais difíceis de medir, como comunicação e trabalho em equipe. Por isso, mesmo fora do anúncio da vaga, ele continua pesando na decisão final de contratação.

Por outro lado, a mudança trouxe um ganho real de transparência. Empresas que tiraram o diploma do requisito passaram a detalhar melhor quais competências técnicas e comportamentais realmente buscam, o que ajuda candidatos a entenderem o que desenvolver.

No Brasil, onde apenas 5% da população tem diploma de graduação, essa diferença entre requisito formal e critério real de decisão é ainda mais relevante para empresas e candidatos que querem se posicionar melhor no mercado de trabalho.

Empresas ao redor do mundo removeram a exigência formal de diploma universitário de milhares de vagas nos últimos anos. Mas remover o requisito do papel não significa abandonar o diploma na prática. Um estudo de 2024 da Harvard Business School com o Burning Glass Institute prova isso com dados de contratação real: menos de 1 em cada 700 novos contratados no mercado americano se beneficiou dessa mudança. Dados ainda mais recentes, de janeiro de 2026, do Indeed Hiring Lab, mostram que a exigência formal de bacharelado inclusive voltou a subir levemente nas vagas publicadas em 2025, sinal de que o movimento está longe de ser uma linha reta.

Esse cenário tem raízes mais antigas. No início dos anos 2000, empresas americanas começaram a adicionar requisitos de graduação em vagas que antes não pediam diploma. Menos de uma década depois, a Grande Recessão derrubou parte desses requisitos.

Mais de dez anos depois desse período, uma pesquisa da Harvard Business Review analisou mais de 51 milhões de vagas publicadas entre 2017 e 2020. O resultado: os empregadores estão de fato redefinindo os requisitos de graduação em uma ampla variedade de funções.

A mudança é mais forte em cargos de qualificação média — aqueles que pedem algum treinamento além do ensino médio, mas não necessariamente uma graduação de quatro anos. Em cargos de qualificação mais alta, a queda também existe, mas é menor.

Por que o diploma não desaparece de verdade

Aqui está o ponto central: tirar o diploma do requisito formal é diferente de parar de valorizá-lo na contratação.

Habilidades técnicas são relativamente fáceis de confirmar. Um teste na entrevista, uma certificação, o histórico de emprego — tudo isso funciona como evidência concreta. Habilidades sociais são outra história. Comunicação, trabalho em equipe, colaboração em tempo real: são competências difíceis de avaliar em um processo seletivo curto.

É exatamente aqui que o diploma continua entrando. Pesquisadores identificaram que muitos empregadores usam a graduação universitária como um substituto — um proxy — para avaliar essas habilidades sociais mais difíceis de medir. Por isso, mesmo quando a exigência de diploma some da descrição da vaga, ela pode continuar pesando, informalmente, na decisão final de contratação.

O estudo de 2024 da Harvard Business School com o Burning Glass Institute coloca números nessa lacuna entre discurso e prática. A pesquisa analisou mais de 11 mil vagas em grandes empresas americanas entre 2014 e 2023 e descobriu que remover a exigência de diploma aumentou a fatia de contratados sem graduação em apenas 3,5 pontos percentuais. Extrapolando para o mercado como um todo, isso equivale a menos de 1 em cada 700 novos contratados.

Mas o dado mais interessante talvez seja outro: nem todas as empresas se comportaram assim. Cerca de 37% delas — classificadas pelos pesquisadores como líderes em contratação por habilidades — conseguiram um aumento de quase 20% na contratação de pessoas sem diploma. A maioria das outras empresas, porém, fez a mudança só no papel. O diploma sumiu do requisito, mas não saiu da cabeça de quem decide contratar.

Os dados do Indeed Hiring Lab citados na abertura do artigo reforçam esse cenário: em novembro de 2025, cerca de 1 em cada 5 vagas na plataforma (19,3%) ainda exigia bacharelado ou mais — um número até um pouco mais alto que um ano antes. O movimento existe, mas está longe de ser linear.

O que de fato melhorou

Nem tudo ficou igual. As pesquisas apontam uma mudança real e positiva: empresas que removeram o requisito de diploma passaram a escrever descrições de vaga mais detalhadas sobre quais habilidades comportamentais e técnicas elas de fato buscam.

Isso cria uma via de mão dupla. Do lado da empresa, o processo de seleção fica mais claro sobre o que está sendo avaliado. Do lado do candidato, fica mais fácil entender quais competências desenvolver — e incluí-las no currículo de forma mais direcionada.

Essa transparência é o ganho concreto da tendência, mesmo quando o diploma continua influenciando a decisão nos bastidores.

E no Brasil?

A pesquisa tem como base o mercado americano, mas o recorte importa para o Brasil por um motivo simples: uma pesquisa de 2021 apontou que apenas 5% da população brasileira possui diploma de graduação.

Num país onde o diploma é ainda mais raro que nos EUA, a diferença entre “exigir graduação no papel” e “usar habilidades reais como critério de decisão” tem um impacto direto sobre quem consegue acessar empregos bem remunerados. Reduzir barreiras formais — sem abrir mão de avaliar competência de verdade — é um caminho concreto para mais equidade no mercado de trabalho brasileiro.

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